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Este, provavelmente, será um dos mais extensos posts que você vai ler no blog MaisUmEscoteiro, por tratar-se de um relato e por refletir um acontecimento marcante na minha vida. Espero que a leitura seja agradável.

Em 1992 eu era um jovem, ingressando na fase adulta, que havia terminado o Ensino Médio e estava prestando meu primeiro vestibular. Nunca havia viajado ao estrangeiro e também não falava nada de espanhol. Mas, andando pela sede da UEBRS, vi um cartaz que convidava a participar dos Acampamentos Escolares, organizados pela Guias y Scouts de Chile.

Era a oportunidade que um “duro” como eu precisava: apenas o custo da passagem Poa-Santiago, alimentação e alojamento 2 ou 3 dias antes do acampamento. O resto: tudo pago pela associação escoteira Chilena. Não pensei duas vezes e me candidatei para o que considerei ser uma aventura de férias escoteira.

Haviam 8 gaúcho inscritos, mas, nosso grupo de viagem era composto por apenas 4 pessoas, que eu sequer conhecia: Andrea, Guillermo, Ricardo e eu. A jornada era longa e, ao final das 32 horas da viagem de ônibus entre Porto Alegre e Santiago, já tínhamos uma amizade consolidada, cujos laços acabariam ainda mais fortalecido pelo que viveriamos no Chile.

Nosso destino final – a pequena cidade de San Jose de La Mariquina – somente nos foi informado no momento do embarque. Nome estranho para uma cidade. Pior, nenhum do vários chilenos que estavam no ônibus haviam ouvido falar deste lugar.

Para um Pioneiro que recém havia feito 18 anos, era prenúncio de verdadeira aventura em terras “desconhecidas”.

Em Santiago, na associação escoteira Chilena, nos indicaram a pensão mais próxima (e barata). Também, nos mostraram no estreito e cumprido mapa do Chile nosso destino, quase 800 km ao sul de Santiago, próximo da cidade portuária de Valdívia.

Para chegar até lá, tomamos um trem (cuja passagem foi paga pela Guias y Scouts de Chile). Foram mais 14 horas, espremidos como sardinha no vagão da segunda classe. Entre os vários passageiros, começava nossa experiência com os escoteiros chilenos, que ajudavam a lotar o trem.

Muitos ficaram pelo caminho, pois, haviam vários acampamentos escolares montados ao longo do Chile. Numa destas paradas, descemos também e havia muita expectativa com nossa chegada ao campo, pois, seríamos os únicos brasileiros a compartilhar duas semanas inteiras de acampamento com cerca de 1.000 chilenos, dentre Escoteiros e escolares de 8 a 18 anos.

Os escolares iam a vinham a cada semana. Os escoteiros ficavam para deixar tudo pronto para a próxima turma e para ajudar em todas as atividades programadas durante a semana.

Posso assegurar que as experiências vividas naquele Acampamento Escolar em 1992 não forma apenas escoteiras, como imaginava no início, mas experiência de vida.

Muitas das crianças e jovens que participavam da 2ª edição dos Acampamentos Escolares nunca havia tido férias (como conhecemos). Grande parte delas nunca havia sequer saído dos limites de suas cidades.

Menos ainda, haviam tido experiência como a que os escoteiros chilenos estavam preparando para cada uma das 4 semanas de acampamento. Jogos, atividades, Patrulhas, vida de campo, Fogo de Conselho, enfim, toda a magia do Escotismo estava sendo apresentada para aquelas crianças e jovens carentes.

Muitos dos que por ali passaram – no Fundo Chonqui, em San José de La Mariquina – sequer tinha família, pois, viviam em casas para órfãos. Portanto, durante aquela semana fomos, também, sua família.

E foi justamente assim que me senti. Cada vez que nos encaminhávamos para o refeitório, eramos assediados por meninos e meninas de 7, 8, 9 anos de idade. Todos queriam um recadinho dos escoteiros do Brasil em suas “Bitácoras”.

Explico: “Cuaderno de bitácora” é nada mais nada menos que o diário de bordo onde os capitães de navios fazem anotações técnicas sobre a viagem (condições atmosféricas, força dos ventos, velocidade do barco e outros detalhes do percurso). Portanto, é um nome legal (em espanhol) para agenda do participante.

A cada dia nos tornávamos parte importante da formação do caráter, nos tornávamos um forte elo estrutural (que muitos não tinham pela ausência de afeto e carinho). Éramos pessoas preocupadas com o bem estar, com alimentação regular, com higiene, com a diversão e o aprendizado deles. Mas, muito mais do que isso: estávamos ali por causa deles, para fazê-los mais felizes.

Ao final da primeira semana, quando os escolares começavam a ir embora, não é possível descrever a emoção que tomou conta do acampamento. Rostos vermelhos, nariz escorrendo e olhos inchados eram a tônica após cada ônibus que partia, tanto dentro (com as crianças e jovens que voltavam para suas rotinas), quanto fora (com os Escoteiros que ficavam).

Mas, uma certeza todos tínhamos: havíamos mudado, de alguma forma, a vida daquelas crianças. Havíamos mostrado para elas que o ser humano também tem direito à vida (e tudo que dela faz parte, especialmente a parte a que estamos acostumados: diversão, companheirismo, alegria, etc). Pena que por apenas uma semana, mas, uma semana inolvidable (como se diz inesquecível em espanhol).

Por tudo o que vivemos naquele longínquo 1992, naquela terra distante, que era San José de La Mariquina, aprofundei, ainda mais, minhas raízes Escoteiras e criei verdadeiros laços de irmandade com Chilenos, escolares e escoteiros, alguns dos quais ainda mantenho contato. Outros tantos rostos e nomes que ficaram para trás no tempo, mas que, em momento algum, saem da memória. E

Quisera, um dia, poder proporcionar uma experiência gratificante como esta a todos os Escoteiros do meu Grupo ou, se Deus for tão benevolente, aos meus filhos Martin e Valentina, para que eles percebam a importância para àqueles que tem pouco ou que nada têm. Que sintam o valor de um abraço fraterno ou de um sorriso espontâneo, como o melhor presente que alguém pode dar, em retribuição ao melhor presente que recebeu: a alegria de viver a vida.

Sinto alegra em viver o Escotismo e procuro passar isso a cada uma das crianças e jovens que nos procura. E, sempre que recordo desta experiência, me vem a lembrança do livro “Lições da Escola da Vida”. São tantas as lições que aprendi na escola da vida Escoteira que espero um conseguir compartilha-las, todas, com os mais jovens.

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